Relação entre Professor e Aluno em EaD
Índice
Introdução
A humanidade trás consigo uma das características mais importantes para seu desenvolvimento e aprendizagem: é um ser extremamente gregário e de relações.
Relações estas que se estabelecem em diversos estilos e que, possibilitam o ser e estar no mundo de forma efetiva. Na escola não poderia ser diferente. Vygotsky defende que “ Por origem e por natureza o ser humano não pode existir nem experimentar o desenvolvimento próprio de sua espécie como uma ilha isolada, tem necessariamente seu prolongamento nos demais; de modo isolado não é um ser completo”. (Vygotsky, 1988). Portanto, no convívio com seus pares e professores é que o aluno manifesta suas possibilidades de aprender, interagir, trocar experiências e desenvolver habilidades e competências.
Na relação professor-aluno, há pelo menos dois destes estilos que proporcionam diversos tipos de interação: de comunicação pessoal e de orientação própria ao estudo. Ambas envolvem afetividade, linguagem, motivação, valores e revelam competências didáticas, dos papéis desempenhados por professores e alunos e o que se espera de cada um deles.
Do ponto de vista didático espera-se que nas relações professor-aluno, o primeiro tenha sentido prático, revelando-se:
- Na dedicação de tempo à comunicação com os alunos,
- Na manifestação de afeto e interesse pelos alunos,
- No elogio sincero,
- No interagir com os alunos com prazer,
- Na qualidade e quantidade de informações repassadas,
- Nas manifestações de autonomia e responsabilidade,
- Na criação de expectativas, desejos e motivação para aprender,
- Na auto-estima e na visão que tem de si mesmo e do aluno,
- Em suas concepções de ensinar e aprender,
- Na eficácia do ensino em relação ao aprendizado revelado.
- Na relação estabelecida teoria / prática, no discurso x ações.
Porém, a qualidade dessa relação não depende só desses dois sujeitos - o aluno e o professor, mas também de todo o contexto didático-técnico-pedagógico institucional, construído no cotidiano e que nos permite perceber o perfil do “contrato didático”, que se estabelece não só entre o professor e o aluno, com regras de comportamento, mas também está sujeita às normas, diretrizes pedagógicas, no PPPE e nas convenções, que nem sempre são estabelecidas só por estes atores, mas também pela gestão do curso, e, algumas delas, pela legislação vigente no País. E neste caso, à modalidade em que se insere: EaD ou presencial.
Esse conceito de contrato didático reafirma a concepção de instituições de educação superior como instituições sociais, que têm como responsabilidade a formação do sujeito não só por meio de ensino, pesquisa e extensão, mas também pela transmissão cultural, o que vai ao encontro da finalidade da educação superior expressa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, especialmente no seu Art. 43. (RONCAGLIO, 2004)
Pode parecer algo simples, mas como toda relação social, está permeada de mitos, inseguranças, medos e anseios, além de ser guiada pelas concepções subjacentes à prática profissional, fruto da formação específica e experiência docente ao longo da vida.
Estudos contemporâneos apontam para uma nova escola, e em EaD são necessárias mais do que competências para ensinar. É preciso também todo referencial que oriente para uma relação interativa, onde o aluno possa dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar saberes. Um espaço dinâmico, que possibilite a criatividade e a colaboração, pois as imposições e barreiras geográficas não podem ser motivos para o fracasso neste processo. O “olho no olho” tão importante não deverá ser preterido. Há outras formas de estabelecer o diálogo e a afetividade. Consideramos, para efeito de compreensão, três tipos de relação baseadas nas posturas do professor, objeto da discussão a seguir.
1. Relações Professor – Aluno:
Os professores e professoras podem revelar-se em sua dinâmica ensino – aprendizagem de diferentes formas, o importante, porém é compreender que não é o ambiente, modalidade de ensino, disciplina ou nível dos alunos, segmento ou série que determinam a relação, mas, principalmente, as crenças que os mesmos desenvolvem a partir de suas formações individuais e bases epistemológicas que lhes orientam. Neste sentido, podemos considerar as relações: autoritária (liberal), democrática (progressista) e laizze faire (autocrata). Paulo freire define tal processo como uma marca impressa:
O professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal-amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático, racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem deixar sua marca. (FREIRE, 1996)
1.1. Autoritária
O cerne de seu trabalho está:
- Na crença de que o aluno não consegue desenvolver-se sozinho ,
- No controle dos conteúdos, objetivos e rumo do processo ensino-aprendizagem,
- Em valorizar alunos que considera bons por critérios pessoais e emocionais,
- Em ver o ato de lecionar apenas como um complemento de salário;
- Em valorizar o discurso emocional com: ameaças e chantagens emocionais,
- Na concepção ingênua de que detém o saber,
- Em manter o controle da indisciplina através do medo, autoritarismo,
- Em acreditar que distanciamento hierárquico é sinônimo de respeito.
1.2. Democrática
Teóricos contemporâneos definem também esta tendência como uma postura de “agente social”, pois o professor ou professora:
- Planeja suas aulas e investe na continuidade de sua formação,
- Valoriza os avanços do aluno,
- Acompanha o processo individual de cada aluno e os ganhos coletivos,
- Busca um aperfeiçoamento constante,
- Tem um carinho especial pela profissão que abraçou,
- Sabe utilizar sua autoridade com moderação e imparcialidade,
- Tem senso de humor,
- Adapta seus métodos e procedimentos de ensino em função da necessidade de sua clientela;
- Possui tato em lidar com as diferenças individuais em sala de aula;
- Está aberto ao diálogo,
- Demonstra dedicação profissional, senso de justiça, caráter, competência e hábitos pedagógico-didáticos necessários à organização do processo de ensino,
- Replaneja sua prática educativa, a fim de estimular a aprendizagem, a motivação dos seus alunos, de modo que cada um deles seja um ser consciente, ativo, autônomo, participativo e agente crítico modificador de sua realidade,
- Preocupa-se não somente com o conhecimento através da absorção de informações, mas também pelo processo de construção da aprendizagem e da cidadania do aluno.
“... o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não uma ‘cantiga de ninar’. Seus alunos cansam não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas.” (FREIRE, 1996)
1.3. Laizze faire
O professor ou professora que desenvolve tal postura perde de vista as conseqüências de suas atitudes, que podem conduzir alunos a acomodação, pela falta de autoridade e proteção excessivas, ocultas em atitudes inconscientes, tais como:
- Estabelecer e buscar todas as atividades e textos, em lugar de deixar que os alunos façam ou permitir que os alunos "irresponsáveis" deixem de cumprir suas tarefas, "fechando os olhos" para os erros e acomodação,
- Fornecer as respostas das atividades, quando eles não conseguem obtê-las, ao invés de deixá-los descobrir o erro;
- Centralizar a resolução de todos os problemas em si mesmo,
- Utilizar chantagem emocional para obter a obediência e cumprimento de tarefas, não por conscientização de tal necessidade, mas porque teme “perder” a amizade dos alunos,
Agindo assim, não se está permitindo que os alunos adquiram autonomia em seus atos e, portanto, os tornam excessivamente dependentes, acomodados ou frustrados.
“Não é certo, sobretudo do ponto de vista democrático, que serei tão melhor professor quanto mais severo, mais frio, mais distante e “cinzento” me ponha nas minhas relações com os alunos ...? A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade. O que não posso obviamente permitir é que minha afetividade interfira no cumprimento ético de meu dever de professor no exercício de minha autoridade. Não posso condicionar a avaliação do trabalho escolar de um aluno ao maior ou menor bem querer que tenha por ele.” (FREIRE, 1996)
2. Posturas do professor e da professora em relação ao desempenho dos alunos
Segundo ABREU e MASSETO (1987), o sucesso (ou não) da aprendizagem está fundamentado essencialmente na forte relação afetiva existente entre alunos e professores, alunos e alunos e professores e professores, pois a postura dos alunos está diretamente ligada ao estilo de prática docente; isto é, à ética profissional e técnica.
O prazer pelo aprender não é uma atividade que nasce espontaneamente nos alunos, pois, muitas vezes, não é uma tarefa que cumprem com prazer. Para que este hábito possa ser melhor cultivado, é necessário que o professor ou professora consiga despertar a curiosidade dos alunos e acompanhar suas ações na solução das tarefas que propuser (o não acompanhamento poderá fazer os alunos se sentirem inseguros na realização da atividade proposta, por julgarem-se cobrados a um desempenho para o qual não foram preparados; e, o fornecer as respostas prontas, não permitindo que o aluno problematize e descubra a resposta correta, acomoda-o e prejudica sua autonomia).
Tendo em vista todas estas questões, é necessário que haja uma preparação do professor para assumir o seu papel em EaD. Para isto, acreditamos ser imprescindível que ocorram encontros destinados à discussão teórica e prática sobre ensino a distância, contemporaneidade, novas tecnologias de informações e outros temas relevantes para o trabalho em Educação a Distância. Para se apropriar desta função, é necessário que a pessoa apresente algumas características importantes, tais como: dinamismo, visão crítica e global, responsabilidade, capacidade para lidar com situações novas e inesperadas e saber trabalhar em equipe.
Segundo FREIRE (1996: 96), “o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas”.
3. A Relação Professor-Aluno em EaD
Compreender a relação professor-aluno em EaD pressupõe compreender os processos de aprendizagem interativos e cognitivos, com base epistemológica em Piaget e Vygotsky. Onde “a aprendizagem é fundamentalmente uma experiência social, de interação pela linguagem e pela ação” (VYGOTSKY, 1984). A interação deve propiciar uma comunidade de aprendizagem, discurso e de prática de tal maneira a produzir significados, compreensão e ação crítica, assegurando a centralidade do indivíduo na construção do conhecimento e possibilitando resultados de ordem cognitiva, afetiva e de ação.
Neste sentido, o professor ou professora em EaD buscará, em sua prática pedagógica:
- Tornar-se um provedor da inteligência coletiva de seus grupos de alunos em vez de um fornecedor direto de conhecimentos;
- Estar presente observando a interação, analisando as mensagens, identificando feedbacks necessários e exercendo seu papel de organizador de condições de aprendizagem;
- Adotar posturas e medidas no sentido de garantir a qualidade da aprendizagem e o ritmo dos alunos;
- Reconhecer que seus alunos são sujeitos ativos na construção dos seus próprios conhecimentos, propiciando a formação de zona de desenvolvimento proximal, que é definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real, (solução independente de problemas) e o nível de desenvolvimento potencial (solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais desenvolvidos);
- Promover atividades relevantes de criação, construção e transferência de conhecimentos;
- Apoiar e dar suporte ao aluno na realização de uma tarefa complexa;
- Criar ambientes interativos de aprendizagem com diferentes graus de complexidade, de forma a possibilitar a ação de cada sujeito, em cada momento, com variados recursos de animação;
- Promover a emancipação e autonomia dos alunos de forma gradativa, através de diálogos, interações e vivências significativas, pelo processo de metacomunicação;
- Promover a reflexão e formação de valores próprios e dos alunos;
- Suscitar o desejo de aprender;
- Promover um ambiente democrático e transparente, num projeto de convivência democrático;
Para Vygotsky (1984) : "o ensino é útil quando vai à frente do desenvolvimento”
Conclusões
Trabalhar e desenvolver projetos em EaD impõe uma dinâmica de relações bastante exigente, pois dependerá da organização, planejamento sistemático, suportes e alicerces seguros, equilibrados e transparentes, pois a distância não envolve apenas o aspecto físico, mas também alguns outros aspectos psicológicos, sócio-culturais e econômicos.
O ambiente apoiado pelo uso do computador traz diversos desafios e diferentes possibilidades de produções individuais e/ou grupais, uma nova forma de ver a educação, formação de conceitos, hábitos, atitudes e procedimentos, tendo como sujeitos alunos, professores e toda uma gama de situações que poderão fazer fracassar ou garantir o alcance dos objetivos.
"A educação a distância corre o risco de fracassar na medida em que não se reconheça que a relação professor/aluno deve estar aberta a mesma proximidade e intimidade psíquica que na aula presencial: a educação a distância é somente possível na biologia do amor a distância. que é a mesma que na proximidade" (Maturana, 2000 ).
Referências Bibliográficas
ABREU, Maria Célia. MASSETO, Marcos Tarciso. O professor Universitário em aula. São Paulo: ME Editora Associados, 1987.
CUNHA, M. I. O bom professor e sua prática. Campinas: Papirus, 1994.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
LIBÂNEO, J. C.. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.
MATURANA, Humberto. Uso da Tecnologia para Aprender no Contexto da Biologia do conhecer. Palestra ministrada no RIBIE - Congresso da Rede Ibero-Americana de Informática Educativa, em Viña Del Mar, dezembro de 2000. disponível em:
http://www.pgie.ufrgs.br/alunos_espie/espie/silviab/public_html/espieufrgs/espie00006/apresentacao/criatividade_tecnologia.htm
Sites:
http://netpage.em.com.br/mines/semint.htm
http://www.revistacienciaeprofissao.org/artigos/24_02/pdfs/24.2.10.pdf#search='rela%C3%A7%C3%A3o%20professor%20aluno'
http://www.ssrevista.uel.br/c_v7n1_frosard.htm
http://www.espacoacademico.com.br/052/52pc_silva.htm
VASCONCELLOS, C. S. Planejamento: Plano de ensino – aprendizagem e projeto educativo – Elementos metodológicos para elaboração e realização. São Paulo: Libertad, 1995.